Posted by caíto | Filed under Uncategorized
Das recordações mais queridas e mais vivas que eu tenho do meu Pai, a musica é se calhar a maior de todas. Foi toda uma vida a ouvir o meu Pai a tocar a sua viola e as suas canções. Para mim eram as suas canções, pois quando se é novo e ainda não se tem a melhor percepção das coisas, o que conta é forma como elas nos são transmitidas e o meu Pai sabia dar um cunho muito especial às “suas” musicas. Foram centenas as vezes que fiquei, ou ficávamos, a ouvir o nosso Pai a tocar no seu quarto, sentado na cama. Nós, deitados, esticados, cruzados, sentados, nós éramos o seu publico, os seus críticos e o seu coro. Aprendemos dezenas de canções de todos os estilos e géneros, de amor, de amizade, de alegria, de família, de tudo um pouco. A maior parte delas eu apenas me conseguia lembrar da letra toda se as cantasse com o meu pai. Pode parecer estranho mas é verdade, parecia que a voz dele era a minha partitura vocal. Com ele os sons pareciam encaixar e encadear-se uns nos outros. Para mim era realmente mágico. E de todas as musicas havia uma que eu gostava particularmente de cantar com ele, e tenho a certeza que os meus irmãos se lembrarão muito bem disso, que era uma do seu cantor preferido Nat King Cole. Ansiedad. Como eu adorava cantar esta musica com o meu pai. A sua musicalidade, a sua simplicidade, a sua forma e idioma românticos, o seu jogo de sedução. Para um miúdo entre os sete e os 12 anos já podem imaginar o encanto e o fascínio que me despertava.
Amanha faz um ano que perdemos o nosso musico, o nosso maestro, e por muito que me custe estar a escrever estas linhas, não podia deixar de prestar mais uma simples mas sentida homenagem ao nosso Paizão. Não queria acabar esta mensagem de uma forma muito triste mas, assim como amanhã faz um ano que tudo aconteceu, hoje faz um ano que tudo ainda era normal, tudo ainda era possível, tudo ainda se podia fazer e acertar.
Tudo ainda se pode fazer mas já nem tudo se pode acertar ou concertar.
Descansa em Paz meu Papá querido e obrigado por tudo o que ainda nos dás.