A preguiça

Eu tento explicar a toda a gente que a minha escrita é muito pobre e que não tem grandes referencias nem considerações, e é fácil de explicar porque! Praticamente não leio livros, quase não conheço os escritores, enfim, nem sei bem porque é que de vez em quando me dá para isto. E isto nem sequer se deveria chamar de escrever pois meia dúzia de linhas não vêm ajudar muito a causa.
Para piorar, ultimamente, em vez de escrever qualquer coisa, dou por mim a passar mais vídeos que a MTV e quando fico a pensar nisso chego à brilhante conclusão de que só pode ser por uma “boa” razão… a verdadeira e bem portuguesa… preguiça!
Imagino que cada um tenha o seu conceito de preguiça e se alguns fazem disso uma forma de estar normal outros fazem-no por necessidade ou por descanso natural. No meu caso, nesta fase, faço-o para contrabalançar com a energia dispendida e com o stress que vou acumulando ao longo do dia, e começa assim que ponho um pé em casa.
Podemos dizer que existem dois tipos de preguiça. Uma é a consequência de algo, é a forma de nos premiar-mos a nós próprios depois de andar-mos a correr o dia todo. Nesta, o único problema que pode acontecer é deixarmos a “festa” arrastar muito tempo e então acabarmos por não fazer mais nada. Mas mesmo assim, esta é sempre melhor que a outra. O problema é aquela preguiça sempre activa de quem não lhe apetece fazer quase nada, quase sempre. Quando se torna a causa das coisas então não há nada a fazer pois tudo gira à volta do mesmo pensamento.
- Que argumentos é que vou arranjar desta vez para fazer o necessário?
Quando o subconsciente está habituado aos argumentos da preguiça, pode ser necessária muita imaginação para sustentar a obrigação.
Enfim, a preguiça tanto pode ser uma boa amizade como pode ser a pior das companhias, tanto pode ser um bom relaxante como pode ser muito atrofiante.
Seja como for, ela existe, e se for tratada como deve ser é sem dúvida uma boa e saudável companheira.

Cada vez que me dou ao trabalho de rever este blog não consigo deixar de pensar na aparente tristeza que ele reflecte. Se eu fosse meu amigo, ou outra pessoa qualquer, e viesse dar uma espreitadela, acreditem que começava a desanimar. Se é verdade que o espelho já teve muitas cores, mais verdade é que ele esta cada vez mais baço e cheio de pó. Peço desculpa por ainda não estar tão colorido como sempre desejei que fosse e também por não estar a conseguir disfarçar este estado de incerteza misturada com alguma decepção pessoal de ainda não ter conseguido encontrar o equilíbrio emocional e pessoal que já deveria existir à muito tempo. Ou se calhar não, se calhar não podia estar a acontecer mais rápido, não havia outra forma de crescer e de aprender de uma maneira mais fácil, mais sustentada e mais harmoniosa.
Peço desculpa por estas fases de “choramingueira”, por certas musicas e por alguns pensamentos mais deprimentes, enfim, desculpem lá este bloguista de meia tigela que ainda não conseguiu atingir um estado de espírito que lhe permita brincar mais com o mundo e com as palavras. É engraçado como as pessoas conseguem ser divertidas e bem dispostas com toda a gente menos com elas próprias. Mas, para aqueles valentes que não receiam entrar em depressão e que de vez em quando vêm dar uma espreitadela, fica desde já a promessa que as coisa vão melhorar. Estou a pensar seriamente de que forma é que posso por a coisa a brilhar e a reflectir umas cores mais alegres.
Mas infelizmente, para já, têm mesmo que se contentar com mais este lusco-fusco… :/

“Há três métodos para ganhar sabedoria: primeiro, por reflexão, que é o mais nobre; segundo, por imitação, que é o mais fácil; e terceiro, por experiência, que é o mais amargo”

Das recordações mais queridas e mais vivas que eu tenho do meu Pai, a musica é se calhar a maior de todas. Foi toda uma vida a ouvir o meu Pai a tocar a sua viola e as suas canções. Para mim eram as suas canções, pois quando se é novo e ainda não se tem a melhor percepção das coisas, o que conta é forma como elas nos são transmitidas e o meu Pai sabia dar um cunho muito especial às “suas” musicas. Foram centenas as vezes que fiquei, ou ficávamos, a ouvir o nosso Pai a tocar no seu quarto, sentado na cama. Nós, deitados, esticados, cruzados, sentados, nós éramos o seu publico, os seus críticos e o seu coro. Aprendemos dezenas de canções de todos os estilos e géneros, de amor, de amizade, de alegria, de família, de tudo um pouco. A maior parte delas eu apenas me conseguia lembrar da letra toda se as cantasse com o meu pai. Pode parecer estranho mas é verdade, parecia que a voz dele era a minha partitura vocal. Com ele os sons pareciam encaixar e encadear-se uns nos outros. Para mim era realmente mágico. E de todas as musicas havia uma que eu gostava particularmente de cantar com ele, e tenho a certeza que os meus irmãos se lembrarão muito bem disso, que era uma do seu cantor preferido Nat King Cole. Ansiedad. Como eu adorava cantar esta musica com o meu pai. A sua musicalidade, a sua simplicidade, a sua forma e idioma românticos, o seu jogo de sedução. Para um miúdo entre os sete e os 12 anos já podem imaginar o encanto e o fascínio que me despertava.
Amanha faz um ano que perdemos o nosso musico, o nosso maestro, e por muito que me custe estar a escrever estas linhas, não podia deixar de prestar mais uma simples mas sentida homenagem ao nosso Paizão. Não queria acabar esta mensagem de uma forma muito triste mas, assim como amanhã faz um ano que tudo aconteceu, hoje faz um ano que tudo ainda era normal, tudo ainda era possível, tudo ainda se podia fazer e acertar.
Tudo ainda se pode fazer mas já nem tudo se pode acertar ou concertar.
Descansa em Paz meu Papá querido e obrigado por tudo o que ainda nos dás.

As coisas que a vida nos trás
Tão belas por vezes despeito
Passam quanto nos leva a respeito
Esse cheiro que sentem fugaz
São feridas de guerra e de paz
Lembram linhas da frente e do feito

São viagens que tocam aos pares
Deixam histórias de amor e carinho
São as marcas do nosso caminho
Desses ventos que cruzam os mares
Vivem tal que sem mesmo esperares
Dão conforto ao teu mundo sozinho

De verdade vos digo e confesso
Que não vejo o mal que advém
De saber que se sente alguém
Não sei quanto mas vejo que o verso
Não é algo que traga e nem peço
Compaixão desse mundo porém